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Beleza Corporal

por neves, aj, em 01.08.07
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Como legenda a foto publicada no portal UOL diz-nos que se trata de modelo em festival de pintura sobre o corpo realizado na Alemanha. Voz do Seven aproveita e publicita os diversos álbuns sobre o tema que possui em arquivo.

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publicado às 21:10

Um dia de pesca dolorosamente reconfortante

por neves, aj, em 01.08.07

AS HISTÓRIAS DEJOÃO DE JESUS

Umdia de pesca dolorosamente reconfortante
(todo o teutormento se ameniza se o enfrentares)

A Primavera tinha feito a sua aparição há muito e os dias soalheiros eradiosos convidavam a guardar os agasalhos no baújá que apenas voltariam a ser necessários na estação outonal com a chegada dos primeirosfrios.
Porém, a manhã apareceu nublada, plúmbea, mas com uma temperatura amena e dentro dos valores que se vinham registando há algumas semanas.Surpreendentemente ainda dentro de casa senti frio... um arrepio invulgar, talvez sintomático de algum resfriado que estivesse prestes a eclodir ea reter-me no leito por alguns dias.
Hesitei se devia cumprir o planeado no dia anterior: - fazer uma das minhas frequentes incursões pela “natureza adentro”, tentar pescar umastrutas e simultaneamente retemperar o corpo e o espírito. Abri o baú e retirei um abafo que não era suposto usar naquela altura. E pus-me a caminho. Apesardaquele sintoma que citei, conclui que estava bem fisicamente.
Embora distasse algumas dezenas de quilómetros, a viagem até ao local previamente escolhido não demorou mais que uma hora.
Depois foi o mesmo ritual de sempre… calcei as altas galochas e vesti o fato camuflado que me habituei a usar nestaslides depois de ter chegado à conclusão que ele muito contribuía para que os timoratos salmonídeos sedeixassem ludibriar mais facilmente.
E ao virar da esquina, ali estava ela, a ribeira que tão bem conhecia, com os seus pequenos açudese a sua corrente rápida chocando contra a penedia donde subiam pequenos flocos de espuma que contrastavam com o cinzento carregado do céu.
Fui andando ribeira acima, como peregrino em cumprimento de promessa por graça recebida.No entanto rapidamente concluí que o dia estava mais para me deleitar com o meioenvolvente que propriamente para capturar algum exemplar, cujos membros, a mãe-natureza achou por bem transformar em barbatanas.
O coaxar das rãs, o voo rasante e super rápido dos belos pica–peixe e o mergulho da graciosa lontra, que por alinaqueles tempos ainda se via com relativa frequência, eram motivos suficientemente fortes para prosseguir a minha caminhada.Nas margens, as actividades agrícolas estavam em fase de grande labor e a cada passocruzava-me com pessoas que por ali andavam na sua faina. A todos saudava com o clássico e habitual BOM-DIA, recebendo de imediato a retribuição.Interrogo-me como é que um gesto tão simpático e tradicional nos nossos costumes está em vias de extinção...nos dias de hoje ninguém cumprimenta ninguém, enfim sinais dos tempos!
Aproveitando também para descansar as pernas, fiz uma pequena paragem para poder apreciar a azáfama de ummelro transportando os elementos que seleccionara para a feitura do ninho. O local escolhido foi um denso amieiro que crescia robusto na margem oposta. E como a partir daí as águas corriam mais mansas, pois o leito era menos acidentado, comecei a ouvir ainda longe como que uma sinfonia, de chocalhos, campainhas e balidos. Fui-me aproximando e deparei com um rebanho de gado ovino de razoáveis proporções.
Cumprimentei o pastor, homem já muito bem “instalado” na idade. Semblante triste, olhou-me cabisbaixo, retribuiu o cumprimentoque lhe fiz e de imediato perguntou-me: O senhor traz essa “farda”... quer dizer que andou lá pela guerra deÁfrica. Confirmei a veracidade da sua dedução e respondi-lhe que tal como grande parte dos jovens da minha faixa etária, por lá tinha andado. E acrescenteiainda que tinha estado na Guiné.
– Na Guiné? O seu rosto transformou-se e duas lágrimas rebeldes sulcaram-lhe o rostoenvelhecido. – Na Guiné morreu-me um filho, sabe? Ou melhor, mataram-nocobardemente!
Tentei confortar o emocionado homem, com palavras de circunstância, dizendo-lhe que infelizmente muitos pais tinham sido atingidos por desgraça semelhante.
– Sei que isso é uma realidade, mas jamais me conformarei com a morte do meufilho!
Enquanto enxugava as lágrimas e tentava conseguir alento para prosseguir a sua narrativa, eu senti um forteARREPIO. Um arrepio tal qual o sentido em casa e que julguei ser prenúncio degripe ou resfriado.
– Sabe, o meu filho era pára-quedista, mas nem corria risco de ser morto emcombate. Era especialista na dobragem dos pára-quedas e por isso não ia para omato. Mas morreu assassinado por um fuzileiro, natural aqui do concelho. Por causa de umas quezílias, umas rivalidades, surgidas num torneio de futebol, disputado em Bissau.
Fiquei petrificado, incapaz de articular uma palavra. Adicionei as minhas lágrimas às dodesventurado homem, pois não foi difícil concluir que, por obra sabe-se lá dequem, estava na presença do pai do meu melhor amigo, um amigo conquistado durante o tempo militar.
As ovelhas e o fiel cão que as mantinha sempre dentro do perímetro“alimentar” rodearam-nos, como que tentando perceber o diálogo tão parco de palavras,mas cruel, que se estabeleceu entre o seu dono e o forasteiro.
E certamente ter-me-ão ouvido perguntar: – Então o Sr. é o pai do meu amigo Fernando Marques?
Com a voz embargada pela emoção, conseguiu responder afirmativamente e questionar-me:– O Sr. conheceu o meu filho?
– Sim meu amigo, conheci muito bem o seu filho. Fomos "colegas dearmas” e grandes amigos, cá antes de mobilizados e na Guiné. E lamento dizer-lhe, mas infelizmente assisti à morte do seu filho!
Seguiu-se um silêncio sepulcral, selado com um forte abraço a que o “Fiel” não terá achado muita graça, pois rosnou e mostrou osdentes como que perguntando ao dono se necessitava dos seus préstimos.
Inevitavelmente, surgiu o convite para ir a sua casa, sobranceira ao prado onde o gado se alimentava.No caminho, como que justificando o convite, ia dizendo que a esposa, envolta num luto profundo desde o dia que soube ter perdido o filho amado, gostariamuito de conhecer alguém que tão de perto convivera e fora amigo do seu “menino”.
Lá estavam religiosamente guardados os álbuns de recordações… as fotografias e os aerogramas com o desejo expresso e bem vincado do regresso, pois faltavam poucos meses para terminar a sua missão!
– Veja Sr., este é o nosso Fernando, com dois colegas. Deviam ser muito amigos, pois mandou-nos diversasfotografias onde estão sempre os três.
Mais uma lágrima me correu pela face, quando vi a foto e lhes disse que o colega e"amigo do meio” se encontrava naquele momento na sua presença!
Consegui reunir forças e dei-lhes alguns pormenores, da maneira estúpida e bárbara, como tudoaconteceu e fiquei com a sensação que esse relato os deixou mais conformados,porque até esse dia nada sabiam de mais concreto... apenas um lacónico telegrama lhes tinha chegado:"O seu filho morreu num acidente com arma de fogo stop. Não tem direito a qualquer pensão por parte do Estado stop. Sentidas condolências stop".

LIVROGADAMAEL – RELATO DO ACONTECIMENTO

João de Jesus
Coimbra

quemé João de Jesus
HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS

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publicado às 13:01




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