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Saudade?

por neves, aj, em 31.01.08

Saudade, não.
Legado, sim.
E podem chamar-me de contraditório porque o mundo constrói-se com contradições...

CLICAR Direi antecipadamente em intróito que ao meter as mãos à obraSANTA COMBA DÃO - FOTOS ANTIGAS</b>já sabia que me arriscaria a ser chamado de saudoso (e não saudosista, note-se, que é vocábulo que me causa arrepios). Já o tinha ponderado, qual jogador de xadrez, durante o largo período de amadurecimento da ideia ou projecto que começou a ser delineado logo após o recebimento de toda a colecção de fotos precisamente no primeiro dia do ano. Note-se bem que por mais de uma vez já disse aqui nas páginas do Voz do Seven que não sei o que são saudades e se saudade é aquilo que dizem que nos faz sentir nostálgicos, melancólicos, chorões e desejosos de regressar a local ou situação anterior, então digo que não sinto saudade, apesar de ter de concordar que pode parecer um verdadeiro paradoxo dadas as inúmeras vezes que falo de Santa Comba, tantas delas amorosa e carinhosamente adjectivada de ditosa e mesmo de mãe (o Google encontra 891 vezes a expressão "Santa Comba" no primeiro Voz, a Casa-Mãe, e 301 vezes no Voz 2, tendo-me abstido de pesquisar expressões similares).
É certo que poderão chamar-me de "inteligente" ou de "artista" (até mesmo de "doente") que sabe driblar os desejos ou sentimentos e colocar na boca ou no "papel" exactamente o contrário do que sente ou pensa. Tenho que concordar que sim senhor e nem me seria difícil fazê-lo, convenhamos, mas também não é mentira que por hábito ou por algo inato que navega dentro de cada um de nós existe a tendência de "acusar" de saudoso o ausente se este fala amiúde do seu torrão natal e/ou dos seus entes queridos. É realmente um pau de dois bicos esta coisa de estar fora: se se disser que se sente saudades pode transparecer (pelo menos por aqui) que não estamos bem e que queremos ir embora, deitar fora o tempo por aqui vivido e regressar à base, em suma fugir, e se não falarmos na terrinha ou admitir que não sentimos saudades então arriscamo-nos (do lado de lá) a ser crucificados e apelidados de filho ingrato.
Olhem caros leitores, eu arrisco e digo que não sinto saudades. Sinto sim um desejo enorme de ir, voar, agora mesmo se possível fosse, conviver com familiares e amigos, comer uma sardinha em molho de escabeche, um caldo repicado, um bom naco de presunto com broa de milho (e azeitonas) e saciar-me com um tinto do Dão. Claro que não me ia esquecer de lançar o desafio ao amigo de todas as horas e ocasiões, que até à distância me desperta a escrita, para corrermos ao "meu Outeirinho" e recordarmos os longos "bate-papos". Inevitavelmente, porque o sangue clama, daria o beijo que os meus lábios ressequidos há quase meia dúzia de anos tanto anseiam e faria tudo o mais que não me lembra agora, mas, tal como antes, no final da festa tinha que regressar a casa e actualmente, caros amigos e amigas, o meu lar habita em S. Paulo. Certamente que compreendeis. Bem a propósito vos digo ainda que o futuro não o sei e nem me interessa saber e que o que acontecer acontecerá, embora não esconda de ninguém o desejo de um dia voltar a colher o perfume das rosas no Jardim. Não só eu, diga-se de passagem.
Arriscando-me mesmo assim a ser crucificado só espero que não me chamem de ingrato pelo que acabei de dizer porque algo que passa sempre pela minha vontade (que me corre nas veias como soi dizer-se) é uma necessidade inexplicável em divulgar a toda a gente e em toda a parte a minha ditosa Santa Comba, tarefa um pouco egoísta confesso já que essa mostra me permite beber seiva fertilizante para que a memória não se esvazie. É por tudo isto e por tudo o que fica omisso que escrevo sobre ela, algumas vezes para ela, tentando sempre fazer uma escrita sem presunção liberta de regionalismos ou bairrismos bacocos, antes carregada de amor e estima.
Digamos ainda que esta declaração ou prova de amor, a minha escrita, é também como um legado. Sim, legado. Repito-o livre de vaidade, antes com orgulho e devoção. É verdade que não é nenhuma monografia ou livro de capa dourada, mas lá diz o Povo que quem dá o que tem a mais não é obrigado. E eu tenho dado o que posso. Não sei se um dia poderei dar mais. Talvez sim, talvez não. É certo que muitos poderão dizer que é insignificante e outros muitos até arriscarão que eu deveria estar quieto, mas há sempre alguém que nos acalenta e que nos incita lembrando-nos ainda que as vozes dos Velhos do Restelo não chegam a lugar algum, nem sequer saem da praia.  E irei continuar até que a vontade me doa ou a mente me proporcionar, agora na forma de um álbum que para além do propósito de mostrar aos mais jovens as "mudanças" no burgo e permitir um alegre recordar aos mais velhos tem também a finalidade de homenagear os nossos antepassados e a sua luta na edificação da cidade sendo que esta homenagem não é direccionada a A ou a B ou apenas às individualidades ou celebridades e sim a todos eles nossos avós, sem distinção, aos anónimos gente simples também.

Nada mais me move, acreditai. Não são saudades, não. Acreditai novamente porque o meu desejo é essencialmente esse: divulgar Santa Comba Dão. Nem mais nem menos que os outros, apenas divulgá-la, cantando bem alto sem preconceitos machistas de que a amo e que a considero mãe na verdadeira acepção, dizer a todos que aprendi a olhá-la de maneira diferente, a apreciá-la, não me interessando que seja este ou aquele a fazer o melhor por ela desde que o faça e ainda contar, despido de chauvinismo, que Santa Comba é afinal uma terra como as demais com filhos bons e maus, só que tem uma particularidade que a torna diferente das outras todas: é a minha.

Post-scriptum - a imagem retrata medalha da cidade de Santa Comba Dão da autoria do artista santacombadense David Oliveira e vem muito a propósito referir que a Casa de Portugal em São Paulo exibe em vitrina um exemplar que nos foi oferecido pela Câmara Municipal aquando da nossa vinda.

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