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O QI dos baianos e o berimbau

por neves, aj, em 03.05.08

PhotobucketFace aos maus resultados dos alunos de Medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia) no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) de 2007 o coordenador do curso veio a público salvar a pele da faculdade e sem papas na língua descarregou a responsabilidade nos alunos: "... baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria".
E de um momento para o outro, "... baiano toca berimbau porque só tem uma corda...", saltou para os noticiários das televisões e dos jornais de todo o Brasil etiquetada de frase preconceituosa com a agravante de vir da parte de quem vem, de um professor de Universidade.
No entanto, se se pegar na expressão em si fora do contexto do discurso total do Professor António Dantas não nos admira que uma maioria dê risadinha, que não lhe veja a carga que transporta [basta ler alguns comentários à notícia a que fazemos ligação noutro local] e que a acrescente ao vasto rol das piadinhas de baianos que, à semelhança de piadinha de português, só será brincadeirinha para aqueles que não se identificam como tal ou se se identificam e não reagirem então têm sangue de barata. Sendo assim falar-se-á na expressão durante uns tempitos, considerando-a como infeliz e com carga preconceituosa, mas que teria sido dita na brincadeirinha e até em seguimento das tais piadinhas. Provavelmente, para não perder o tacho [emprego] o professor virá retractar-se (à semelhança do Senador da piada de português) apresentará desculpas públicas bem sentidas afirmando que de maneira alguma desejou ofender o povo baiano, adjectivando-o de forma elogiosa e fazendo até questão de lembrar que também ele é baiano. Acabará tudo numa boa e nenhum mecanismo será accionado ou como lusitano diria, acabará tudo em águas de bacalhau.
Acontece que se formos mais além no discurso do professor, que antes de mais será médico já que é coordenador do Curso de Medicina, a gravidade aumenta quando diz que "o QI [quociente de inteligência] dos alunos de medicina é baixo sim" e mais grave se torna quando questionado sobre medidas a tomar para remediar, digamos, a falta de sucesso, afirma peremptoriamente: "não tenho como mudar a genética" [notícia no G1-Portal da Globo].
O engraçado da questão que não tem absolutamente graça alguma, atente-se, é que não vimos nem ouvimos nos grandes meios de comunicação a exploração desta parte do discurso do professor quando decide atribuir o insucesso, a incapacidade de bons resultados, ao "sangue" que circula nas veias de cada baiano. É que se atribuirmos o "problema" a uma questão genética o caso muda de figura, bastante, e de discurso preconceituoso passaremos a afirmação com componente rácico mais própria de um médico maldito dos anos 40 do século XX.

Deduzam os leitores à vossa maneira, mas nós pensamos assim embora não sabendo, confessamos, se por culpa de algum gene que caracterizará todo aquele que luta contra o preconceito e os seus componentes mais fundamentalistas (tantas vezes mascarados por aquele), a xenofobia e o racismo.

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publicado às 09:57




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