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De castigo para a bolanha

por neves, aj, em 05.07.08

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De castigo para a bolanha
(ou a arte de mal comandar em toda a selva)

I - as causas

PhotobucketTodas as guerras são assim: uma miscelânea de contrastes e incompreensões. De arrogância e totalitarismo com a chancela de altas patentes insensíveis aos valores humanos, mas sedentas de vitórias que lhes trarão louros e honrarias.
Bom seria que recorressem ao bom-senso e ponderação para que muitos conflitos não chegassem a vias de facto. Será que a guerra em que nos envolvemos durante longos anos com os autóctones africanos não seria conflito evitável? Uma guerra que (e nunca será demais referir), provocou um incontável número de vítimas e deixou mergulhadas nas trevas do luto uma imensidão de famílias.
Não temos capacidade para poder fazer uma afirmação peremptória se seria um conflito evitável. Porque os interesses políticos e económicos que sempre estão subjacentes a estes confrontos, são muito complexos e apenas os analistas e estudiosos destes temas poderão formular opiniões abalizadas.
Todavia julgamos estar à altura de poder afirmar, que dentro dessa guerra para onde nos atiraram e que sentimos na pele, muitas batalhas aconteceram altamente nocivas e traumatizantes para todos os que nelas se viram obrigados a pelejar.
E que com alguma reflexão e respeito pelos valores humanos seriam facilmente evitáveis. Mas a sede de sangue, a demonstração de poder e a ânsia de promoções e benesses, toldava as mentes dos homens que mandavam na guerra!
E levavam a que ditassem directrizes a partir dos cómodos gabinetes, apetrechados com bons whisky’s e as delícias do ar condicionado.
E aconteciam desgraças como a “Batalha de Bissau” a que nos referimos em escrito anterior e, que o colega autor de GADAMAEL em rigorosos e verídicos pormenores nos descreve. Como afirma, embora tudo indicasse que a situação estava a tomar contornos mais que previsíveis de grande violência entre militares até ali amigos e defensores da mesma causa, a HIERARQUIA nada fez no sentido de evitar o desastre que veio a acontecer. E no rescaldo de tão ignóbil refrega mais duas vidas pereceram na pujança da sua juventude.
Mas não terminou assim um episódio tão tristemente marcante: Havia necessidade de dar continuidade às batalhas!
Ainda os corpos dilacerados dos colegas mortos estavam em câmara-ardente, e já as mesmas hierarquias que nada fizeram para evitar o fatídico confronto, ordenavam a formatura dos efectivos na parada do quartel. E em discurso inflamado e dedo em riste, acusavam-nos de promotores da discórdia, quezilentos e arruaceiros!
E que se procurávamos a guerra, então iríamos tê-la muito dura e a sério!

II - um mês de horrores na bolanha

PhotobucketFomos brindados com um mês contínuo no “mato” numa das regiões mais “turísticas” da Guiné. Onde o “fogo de artifício” era uma atracção, expelido pelas bocas dos morteiros e pelo matraquear irritante e tenebroso das “costureirinhas”.
As águas fétidas da bolanha, punham à prova os organismos, com a certeza de que os que resistissem, ficariam imunizados e jamais teríamos necessidade de frequentar alguma estância termal.
E os inseparáveis mosquitos “ANOPHELES”, portadores dos parasitas do sezonismo, que aos milhões, nos contemplavam com as suas dolorosas ferroadas e se riam do repelente que utilizávamos como antídoto, para os tentar impedir de exercerem a sua “nobre” missão.
A alimentação como convinha era o mais frugal possível. Umas sardinhas e uns pedaços de atum, envoltos em latas às vezes já ferrugentas, e cujo prazo de validade há muito expirara! Ainda bem que a ASAE não existia nesse tempo, pois certamente nos impediria de saborear tão apetecíveis iguarias.
O opositor, conhecedor do terreno e soberbamente apetrechado a nível bélico, não nos dava tréguas! Ripostávamos o melhor que nos era possível, aplicando os ensinamentos que durante meses e meses nos foram ministrados.
Era porém uma luta desigual, e com um forte odor a castigo, para quem cometera infracção muito grave!
Nas guerras convencionais são sacrificados soldados, mas também coronéis e generais. Esta porém, era uma guerra feita apenas para a soldadesca, sargentos e oficiais subalternos. Havia necessidade imperiosa de os crânios com patente mais elevada, estudarem as cartas e traçarem estratégias de ataque de êxito assegurado.
E sem as lufadas de frescura emanadas dos aparelhos de ar condicionado, as ideias brilhantes ficariam certamente cerceadas.
Íamos contabilizando os dias desse longo mês, que tão lentamente iam passando. Se no período diurno os receios e sobressaltos eram muitos, sempre que o ocaso fazia a sua aparição, as preocupações e cuidados tinham que ser redobrados. Embora nos deslocássemos estrategicamente todos os dias dentro da mata densa, o opositor sabia que nos encontrávamos em zona fácil de calcular.
E brindava-nos com verdadeiros festivais de artilharia pesada, tentando aniquilar-nos dentro do matagal cerrado.
Optávamos por ficar na orla, muitas vezes com o tronco em cima de um tufo de capim, e as pernas enterradas no lodaçal do pântano. E era sobretudo aí que os batalhões de mosquitos faziam os seus festins sanguinários, quais Dráculas em miniatura!
Miraculosamente fomos resistindo sem quaisquer baixas, mas o cansaço era tal que mesmo em meio tão hostil, era frequente ouvir o ressonar do colega do lado, que prontamente era “abanado”, pois sabíamos que o silêncio era arma tão preciosa quanto a G3 que nos estava distribuída.
Logo que a aurora surgia no horizonte, a passarada contemplava-nos com uma sinfonia de gorjeios, que aliados aos estridentes guinchos dos símios, despertava mesmo os mais ensonados e aconselhava-nos a rumar a outras posições mais abrigadas.
E a meio da manhã quase diariamente, víamos pairar no céu um “pássaro”, que pela altitude a que voava, mais parecia um agoirento e minúsculo abutre, tresmalhado de algum bando que por aquelas paragens abundavam.
Era a “Dornier” transportando o Comandante ou outro oficial superior que vinham indagar como decorriam as “coisas”, e transmitir as suas ordens através do TH 736, o rádio emissor/receptor que sempre nos acompanhava.
Dizia pouco e creio que quem recebia as ordens também pouco ou nada lhes ligava. Estávamos mais interessados em salvar a pele, usar de todos os cuidados possíveis, e esperar o dia do regresso à Base para podermos usufruir do privilégio de um duche retemperador e degustar uma refeição digna desse nome.

III - o regresso, o levante e o churrasco de galinha adormecida

PhotobucketA boa-nova chegou dois ou três dias antes de terminar o período de castigo decretado!
Fomos informados via rádio, para na manhã seguinte seguirmos as coordenadas X+Y, montarmos a respectiva segurança, para com o apoio dos bombardeiros “Fiat” sermos recuperados pelos helicópteros e transportados para o aquartelamento do exército mais próximo. Onde já iríamos almoçar e nos aguardava uma refeição quente!
Tudo decorreu sem grandes sobressaltos com excepção de um pormenor que naquela situação era para todos de primordial importância... a prometida e tão ansiosamente aguardada refeição quente!
Porque o que tinham confeccionado para nos mitigar a fome eram umas batatas cozidas e geladas, misturadas com uns nacos de atum de salubridade muito duvidosa!
Tivemos oportunidade de confirmar o espírito de companheirismo existente entre todos! Até parecia que tudo tinha sido planeado previamente. Uns mais outros menos exaltados, todos porém manifestamos o mais veemente protesto, e recusamos ingerir tão paupérrimo repasto.
E enquanto o oficial de dia procurava descobrir os imaginários cabecilhas para poder incriminar como bodes expiatórios pelo levantamento do rancho, quase todos rumaram em direcção à aldeia contígua ao aquartelamento. Regressaram minutos depois, cada qual exibindo a sua galinha, que tinham adquirido junto da população local mediante preço pré-estabelecido. Não perderam muito tempo e abateram os galináceos, que rapidamente transformaram em delicioso churrasco.
Perante tal cenário, reuni o meu grupo e partimos procurando imitar os colegas para tal como eles podermos saborear tão apetecível pitéu. Mas era tarde! Batemos a tudo que era “TABANCA”, mas já ninguém tinha ou queria vender mais galinhas.
Que as que restavam eram “prós criação” ou que “os marido davas porrada” se não reservasse “uns galinha prós família”!
Embora já muito cépticos não desistimos e fomos procurando até há habitação mais recôndita do povoado, obter quatro franganotas.
E aí renasceu a esperança, pois deparámos com uma cerca onde se passeavam em regime de prisão domiciliária, umas duas dezenas de “bicos”.
Porém, quando abordámos a proprietária e dissemos ao que íamos a recusa foi peremptória: que não vendia mais galinha pois “os tropa do bota alta” já tinha comprado muitas, que estas eram de sua prima e eram “prós criação”.
Quando nos vimos na contingência de ter que recorrer a mais umas sardinhas enlatadas no improvisado bar do quartel, ocorreu-me uma ideia que resolvi pôr em prática! Quando adolescente, os mistérios que o hipnotismo encerra eram para mim fascinantes! E decidi frequentar um curso por correspondência que era publicitado nos periódicos diários. Não fui muito longe nos resultados, porque a desistência não tardou a pôr termo às eventuais aspirações a MAGO, que pudesse ter acalentado.
Mas alguma coisa ficou! Um dos primeiros “truques” que o curso ensinava era como fascinar galinhas. Ainda hoje, em brincadeiras com o neto ou com amigos, costumo fazer umas demonstrações e ponho umas “penosas” a fazer a sesta.
E então, como que em recurso final, questionei a nativa dizendo-lhe: ou nos vendes quatro galinhas ou farei um feitiço e todas morrerão rapidamente. Ouviu-se um riso tímido da ingénua indígena e da vizinhança que se tinha aproximado e assistia às negociações. Perante a insistente recusa e vendo que a transacção jamais se efectuaria, não hesitei: com a destreza própria da idade, aliada a uma preparação física invejável, transpus de um salto a paliçada e desatei a “matar” galinhas com o olhar!
Seguram-se as ditas pelas patas e após baterem as asas umas quantas vezes, ficam cansadas e quedas. Depois basta fixar o olhar durante alguns instantes nos seus olhos, para ficarem adormecidas e de patas para o ar.
Facilmente se pode imaginar a surpresa que a tramóia causou na supersticiosa e iletrada população. Ainda a operação “abate total”, que foi como a cognominamos ia em menos de metade, e já as partes reiniciavam as negociações, que rapidamente foram coroadas de êxito. Apenas uma cláusula foi humildemente colocada: tínhamos que sair do local para não matarmos as restantes aves. Aceitámos de bom-grado, não sem antes termos o cuidado de soprar nos olhos das “mortas” e devolvê-las à “vida”.
E lá partimos rumo ao aquartelamento com quatro exemplares de galináceos, que confeccionámos para a merenda, pois a hora do almoço há muito tinha passado.
Permanecemos por ali mais dois ou três dias aguardando transporte para a nossa Base, sediada em Bissalanca, nos arredores de Bissau. Fomos gastando as horas bebendo umas cervejas, confraternizando com a tropa ali estacionada e fazendo uns contactos junto da população civil. Regressámos com a certeza que o truque de “matar” as galinhas, mas sobretudo de as “ressuscitar”, nos deixou perante aquelas ingénuas criaturas com uma auréola de ser Divino, ou no mínimo de feiticeiro!

As guerras são assim: uma miscelânea de contrastes. Momentos de horror, de raiva, tristeza e desespero. Mas também com períodos de acalmia e bom-humor, que aliados à irreverência dos vinte anos, eram tónico que nos ajudava a enfrentar todas as vicissitudes com um espírito de aceitação notável.

J. Jesus
Coimbra 11/07/08

quemé João de Jesus
HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS


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Vermelho de Rosa

por neves, aj, em 05.07.08

A ti Mãe
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