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Tiveste sorte, podia ser pior

por neves, aj, em 18.12.07

CLICAREsta é uma daquelas situações em que se pode aplicar a mais optimista e quiçá também mais eloquente das expressões que constam dos calhamaços da sabedoria popular: tiveste sorte, podia ser pior.
Já passámos por isso quando em 1998 ao saltarmos atleticamente uma corrente de ferro elevada aí uns 40 centímetros do solo saboreámos o pó. Bom, o pó como quem diz já que o chão era coberto de duro cimento/concreto e o resultado foi uma fractura no membro superior a nível do cotovelo (mais precisamente no olecrâneo/olecrano do osso cúbito ou ulna do antebraço esquerdo).
– Eh pá, que foi isso?... partiste o braço?... como é que aconteceu?
E eu, pela enésima vez lá conseguia arranjar/arrumar pachorra para explicar mais ou menos o tombo perguntando-me mais uma vez porque ninguém se interessava se tinha dores, por exemplo.
– Vá lá, podia ser pior...
– ... é
– Uns centímetros mais e podias ficar com o cotovelo inutilizado...
– ... é mesmo
– No meio disto tudo até tiveste sorte, se fosse o direito...
– É, sorte do caraças (ou do cacete, como por aqui se diz) andar com o braço pendurado ao pescoço, limitado de movimentos e a calçar as meias com o calcanhar virado para a frente...
– ... mas olha que era bem pior se tivesse sido um pé ou uma perna... tinhas que andar de muletas...
– ... ou de cadeira de rodas...
– ... eia... nem tanto...
– ... é... há quem desloque uma vértebra por menos... ficar paraplégico...
– ... exagerado...
– ... eu?
Realmente perante a calamidade temos sempre sorte, porque a mente humana pródiga em imaginação lá consegue amenizar o azar de terem ido os anéis por terem ficado os dedos. Vejam lá que até na morte, o mal sem cura, a voz do povo é douta e benta procurando suavizar-nos a dor:
– ... coitado, pelo menos não sofreu...
– ... é, mas partiu...
– ... todos temos que ir um dia...
– ... é, mas ninguém quer tomar a dianteira...
– ... chato, sempre do contra...
– ... eu?
Realmente partir sem dor será o mal menor já que do verdadeiro mal não se pode fugir.
Bom, mas ao levarmos a conversa para o nosso cúbito fracturado e da sorte que tivemos por não ter sido também o rádio, o úmero ou todo o membro, pelo menos, desviámo-nos daquilo a que nos propúnhamos: a de noticiar a sorte que esse carapau teve em escapar de ser enlatado e assim partir entalado para o outro mundo.
Podia ser bem pior, pá, tiveste sorte...

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publicado às 06:31


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