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Maitê Proença e Portugal

por neves, aj, em 15.10.09

... li que se considera portuguesa, porque o avô era português [disse-nos mais tarde que são os dois]. No entanto, há uns anos fez uma reportagem nojenta em Portugal desdenhando de um Povo que nada lhe deve e que, curiosamente, muito lhe tem dado: carinho, dedicação e admiração, euros também, e, paradoxo dos paradoxos, ofereceu-lhe as raízes da sua existência conforme a própria admite. Li e ouvi, também, que pede desculpas aos portugueses. Eu não as aceito.

PhotobucketFoi no Domingo passado que recebi da parte do amigo JJ o famigerado VÍDEO [o vídeo saiu do ar por acção expressa das Produções Globo, mas há sempre quem o tenha guardado para jamais esquecer a afronta. Quem o desejar é só pedi-lo à pessoa certa].   Sei que não o visionei de imediato (não imaginava do que tratava) já que estava embrenhado no processo eleitoral que decorria na santa terrinha, mas quando o fiz, praguejei. Sinceramente que até equacionei tratar-se de uma montagem qualquer e, qual Sherlock, tratei de investigar. No Youtube encontrei o vídeo e reparei que tinha sido colocado em 2007 (no entanto "a reportagem" para o programa Saia Justa teria sido há 4 anos, segundo a própria) e de imediato fui à página do Saia Justa, mas lá só estão disponíveis os vídeos mais recentes. Pelo caminho encontrei uma resposta ao vídeo da parte de uma portuguesa nascida em Moçambique e que até enviei ao amigo, quiçá para lhe atenuar a revolta que devia estar a sentir, tal como eu. Inevitavelmente entrei no sítio oficial e apeteceu-me enviar-lhe o endereço do vídeo da reportagem perguntando-lhe se admitia tudo o que disse. Acabei por não o fazer. Lá no sítio dela, comprovei que tem prazer em desdenhar. Que se lixe, pensei. Quero é viver em paz com a minha Maria, que não é Maria mas que passou a sê-lo por justa homenagem à "Maria-companheira do Zé lusitano".Ela gosta, a minha Maria, porque até lhe traz à memória a avó de Sernancelhe. É diferente de Maitê. Talvez por ser Silva e não Proença, nem Gallo com dois eles como o azeite. Não sei se deva estar arrependido, mas do que me arrependo foi de não ter redigido uma entrada logo naquela noite de Domingo. Até parece que não dei importância ao assunto. Mas dei. No entanto... Primeiramente adiei porque tenho por costume estar bem documentado, depois fui adiando porque esta semana foi deveras acidentada: o meu canino tratado por estagiária na USP e idas e voltas com RX e consultas ao fémur da Maria. Pelo SUS adiante-se, Serviço Único de Saúde, público, para esclarecimento de Maitê. Da minha conversa com a minha Maria, também ela incrédula com o que vira e ouvira, transpirava revolta, nojo, mas também mágoa já que me sentia traído... eu só me perguntava: porquê? Com a almofada, a conversa era a mesma, as interrogações também: o que levaria uma mulher que sabia ser tão considerada em Portugal pela sua beleza e pelo seu desempenho nas novelas e teatro (anúncios publicitários também) a depreciar os monumentos erguidos em memória dos feitos passados? O que levaria essa mulher que como actriz aceitou o convite de um cineasta português (Leonel Vieira) para fazer parte de um filme (A Selva) baseado no livro homónimo de um autor português (Ferreira de Cristo) em que contracenava com um actor português (Diogo Morgado) e em que interpretava o papel de uma mulher casada que se envolve intensamente com um aventureiro português, a desdenhar tanto dos portugueses?  A "meter-se" com Camões, Gama e até Pessoa? A ridicularizar da grandeza do Tejo, e não me refiro propriamente à largura do seu estuário e sim ao simbolismo que o local representa para portugueses e outros povos.
Com oPolíbio Braga na memória, o jornalista gaúcho que tal como Maitê desdenhou do Povo Português (embora este tenha tido direito a uma achega do nosso Embaixador Seixas da Costa), também pela experiência que por aqui já adquiri em que vejo alguns luso-descendentes a não gostarem de considerar as suas raízes lusitanas e ainda pelo apelido Proença que não deixava de martelar-me a cabeça, afinal apelido que se pode ajustar a qualquer português, meti-me em análise mais pessoal. Descobri que, afinal, Proença é herdado da mãe, Margot, e que Maitê é Maitê Proença Gallo já que o pai se chamava Augusto Carlos Eduardo da Rocha Monteiro Gallo, nome mais que ajustável a qualquer cidadão lusitano ou seu descendente, mas parei por aqui porque fiquei totalmente siderado com o que li: apesar de desempenhar profissão que nos transmite ser pessoa de estabilidade emocional, Procurador de Justiça, o pai de Maitê, conhecido como Eduardo Gallo, foi possuído pelo ciúme e assassinou a esposa Margot. Segundo li, Maitê tinha apenas 12 anos, testemunhou a favor do pai, este nunca foi preso e até foi absolvido. Acreditai que a minha reacção foi desistir imediatamente da entrada. Senti comiseração pela criança Maitê e mesmo correndo o risco de pensarem que me acobardei, preferi não reagir àquilo que Maitê-mulher chama de  brincadeirinhas para com o Povo Português. E assim fiz, não escrevi, quer dizer, não publiquei. Para mim era drama a mais e nem quis imaginar-me envolvido em teia semelhante. Fiz o que Maitê não fez ao meu Povo: respeitei-a. Apesar de eu sair a perder, preferi assim. Calar-me, não fazer notícia. Em parte até ia ao encontro do que oSantos Passos pensa: um brasileiro ridicularizando Portugal nem deveria ser notícia.

No entanto hoje escrevo, escrevo porque entrei em turbilhão ao ouvir o seu pedido de desculpas ao Povo Português. Soa a falso, redondamente, e para mim, ainda veio agravar a questão quando insiste em chamar de brincadeirinhas às suas ideias fortemente preconceituosas em relação aos portugueses e à Lusitânia. Diz ela no pedido de desculpas que o povo brasileiro é brincalhão, e faz piada com tudo. Não é bem assim cara Maitê. Apesar de só levar 7 anos de Brasil estou à vontade para o dizer. Venha comigo para as filas dos Hospitais, venha viajar, como eu viajo, de autocarro (ônibus) por São Paulo, e pode constatar que o Povo não tem vontade de fazer piada. Nenhum de nós. Sim, nenhum de nós, porque apesar de não ser cidadão brasileiro sinto-me peça perfeitamente enquadrada em busca de melhores condições para o Povo do qual já faço parte. Ele, o Povo, sempre escrito em inicial maiúscula, tem, isso sim, é desejo de melhorar as coisas e tornar-se mais igual. Com luta, sem piadinhas nem brincadeirinhas. Mas eu sei que o Povo que Maitê conhece é bem diferente daquele que eu conheço e talvez por isso ela use e abuse do seu nome em vão: é, eu conheço o Povo que não frequenta colégios e sim Escola Pública, que não tem dinheiro para o Convénio de Saúde e que vai para a fila dos Hospitais, como eu, que não tem dinheiro para o medicamento e que vai, como eu, para a fila da Farmácia dos Postos de Saúde... sem constrangimentos, sem vergonha, porque afinal é retorno de impostos pagos!

O que mais me irrita em Maitê é que conseguiu enganar-me, escondeu durante tanto tempo a sua lusofobia que faz com que eu me sinta como que um traído... porque admirava Maitê. Em busca de um pouco de tranquilidade procurei as palavras do nosso ex-embaixador em Brasília e que actualmente exerce o cargo em Paris. Hoje dá-as à estampa em artigo de título Palhaçadas. Reage, como cidadão português que é, contudo o diplomata que tem em si parece que transmite a ideia de que se ainda estivesse por cá talvez não reagisse oficialmente, é que, como diz,há sempre que ponderar se tal reacção não acabará por ter um efeito desproporcionado, ajudando a chamar mais atenção do que aquela que a própria questão no momento teve. Foi, afinal, o que fez o nosso Embaixador actual, João Salgueiro. O sítio da Embaixada fez-se mudo sobre o caso e o Blogue da Embaixada apenas noticiaa polémica e aexplicação de Maitê. Soube-me a pouco como diria Sérgio Godinho. Eles (os da conduta diplomática) é que têm os livros, diria Zé Povinho, mas a verdade é que transpira para o cidadão comum que afinal Políbio não é Maitê Proença e nem o próprio Senador da "coisa de português" o é, apesar do alto cargo desempenhado. Por Maitê ser "global"? Talvez, não sei. A minha Maria, mais habituada, diz que é capaz de ser. Ou então, pensei eu cá para com os meus botões, eu é que estou a condimentar a coisa com uma boa pitada de radicalismo. Estarei a fazer tempestade em copo de água? Talvez sim ou talvez não.

Hoje é Quinta-feira, o assunto vai-se diluindo lentamente e Maitê já deve estar numa boa. Eu é que continuo incomodado, arrependido de não ter escrito nem que fossem apenas duas linhas para mostrar a minha revolta. Ovelha que berra é bocada que perde, como diz o sábio Povo Português, mas eu fui diferente: fiquei a pastar e não berrei. Acabo em tristeza, triste por mim próprio já que fiquei desiludido com Maitê e ainda, talvez mais, com alguns "intelectas" da Lusitânia que desviam o assunto apenas para as "piadas de português". Não são as piadas que me atrapalham.  É o deboche. Não para comigo, mas para com o Povo. Um dessas altas cabeças até diz que sou, somos, complexado, saloio e provinciano. Já que deve conhecer o termo, MST bem podia chamar-me caipira. Sempre faz lembrar a famosa caipirinha. Mas é bom ser-se caipira, provinciano e saloio, caro MST. Complexado é que não, nem com falta de humor. Eu não sou desses que anda permanente de cara fechada, sisudão, que parece que anda de mal com o mundo e que acha que todo o mundo lhe quer mal, carregando a mania de contrariar o mais que óbvio. E digo-te mais, pá, há sim portugueses que vêm ao Brasil e não gozam e até ficam a residir por cá não ligando patavina para "os 3 das portas" colocados ao contrário. Dou-te por conselho frequentar outros meios, quando cá voltares podes ligar-me que até te ofereço os prazeres da carne numa feijoada feita por mim. Banana...

Post scriptum - tinha vontade de explorar a frase "... eu brinco com a minha própria mãe...", mas não sou capaz, mexe emocionalmente comigo, talvez por já ter perdido a minha, não sei... continuo a não entender Maitê Proença!

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publicado às 20:29


4 comentários

De J.J.J. a 18.01.2010 às 15:05

Meu conterrâneo AJNeves,
Defendemos a resposta do embaixador, enquanto cidadão, ao snr.Políbio Braga, exactamente pela sua ironia, acolchoada pelo polimento de que só o recurso à razão para domesticar a emoção é capaz.
Se dessemos curso à emoção, desprezando a razão fundada na realidade histórica,não sairia um post civilizado no nosso blog cidadania (armacaodepera@blogspot.com), mas uma enormidade de adjectivos suezes que satisfariam a necessidade de escarnio e maldizer, perante os quais nos colocariamos no mesmo patamar de incultura e desinformação que a snra Proença Gallo manifestou.
Atendendo no entanto ao facto de sermos um pais com 900 anos alguma sabedoria deverá sobrar face a um natural de um pais com 200. Não acha?
Termino lembrando as palavras publicas de um brasileiro dos estrotores finais da ditadura, que foi ministro da Fazenda: Mario Henrique Simonson, durante um program de TV,onde, num acto de sinceridade histórica e patriotica, lembrou a quem quisesse ouvi-lo, lá pelos idos de 1977, que se o Brasil tem hoje a dimensão que tem (com tudo o que daí resultará para o seu futuro e dos seus) que o deve aos Portugueses!
Por conseguinte, se o brasileiro tem orgulho no seu famoso umbigo, para o qual alguns brasileiros acham que tem a exclusividade do focus do comum dos brasileiros, ou se a grandeza do Brasil fundamenta a ideia de que Deus é Brasileiro, perdoe-me a imodéstia mas isso, na sua origem, deve-se à acção dos Portugueses!
O Freud explicará o resto!

De Anónimo a 20.10.2009 às 17:29

Do video tirei uma dúvida é que ela não "engole" cospe. E já fui pesquisar se o nosso Zoo, tem la uma jararaca desta especie.

De Elisio Branquinho a 16.10.2009 às 13:42

Sem dúvida um comentário feito à medida daquilo que os Portugueses passarão a têr por Maitê Proença.
Claro que o sr.MST tinha logo que vir defender "sua donzela".
Como escritor e comentador de TV que é,devia pensar duas vezes antes de tomar qualquer partido.
Como diz o Povo,quem não se sente não é filho de boa gente ou a brincar a brincar matou o macaco a mãe e se o pai não fugia matava o pai também, é mais ou menos assim.
Um abraço Neves.
Elisio Branquinho.

De Rogerio a 16.10.2009 às 05:17

Amigo Neves,
Obrigado pelo teu excelente comentario............revejo-me totalmente nele, como nao podia deixar de ser.........
Abraco
Rogerio

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