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Ao segundo dia, chorou

por neves, aj, em 19.04.10

Eu não sei, nem imagino, a interpretação que possais fazer do que agora escrevo. Do que vou escrever, das palavras que poderão aflorar ainda ao meu cérebro, as quais, atente-se, nem eu próprio neste preciso momento tenho consciência plena, já que redigir um pequeno artigo ou texto de opinião é bem diferente de escrever um livro. Este, segundo dizem porque nunca escrevi algum, já toma forma bem antes de ser colocado no papel, é feita uma ponderação aturada, enquanto que o artigo, apartando o objectivo, depende da fase inspiratória do momento e, também, das últimas leituras que temos guardadas em memória. Claro que se a leitura mais recente fornojenta como esta, mui provavelmente as palavras são duras podendo inclusive ferir susceptibilidades. Contudo isso não me incomoda por aí além, diga-se em abono da verdade.
Incomoda-me, isso sim, que julgueis que sou despido de sentimentos, que, vestido de capa inquisitorial, tenha tomado por objectivo único a perseguição aos membros da Igreja e até que julgueis que desrespeito uma religião que tem milhões e milhões de seguidores. Nada disso, meus caros. À religião jamais. Digo mais, que respeito a religião de cada um, no caso específico a Católica Apostólica Romana, com muito mais fervor do que muitos dos seus seguidores que não respeitam uma tomada de posição de outros que seja contrária à sua quer por terem optado por uma outra religião quer pela sua ausência, como é o meu caso. É. Apesar de ter sido baptizado [com 5 meses] e ter aceitado um casamento católico, não sou praticante de "prática católica" alguma e como não me refugio naquela máxima de "católico não praticante" devo assim considerar-me como não seguidor.
Nem sou desta nem de outra. De nenhuma. Contudo, esta ausência [por assumpção] não invalida que deixe de praticar o que as religiões pregam e prezo-me de o cumprir.
Em suma, não necessito de religião alguma [nem do temor a um deus qualquer] para ser solidário, tolerante, para defender um mundo mais equilibrado sem guerra e fome, em paz, e, essencialmente, não necessito que alguém instalado no alto de um púlpito me venha incitar à indignação por actos inqualificáveis perpetrados contra seres fragilizados, sem defesa, como as crianças. Já não bastava o facto de ainda estarem em fase de formação, por isso se chamam crianças, as violações de cariz sexual sobre elas tomam proporções ainda mais revoltantes se praticadas por indivíduos nos quais a sociedade tem plena confiança, como padres ou bispos, e se só foco esta classe é porque me quero reportar aos acontecimentos últimos tão badalados na imprensa: a pedofilia praticada por membros do clero.

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Não pretendo definir aqui graus para a pedofilia nem argumentar que um pedófilo sem formação académica é menos pedófilo que o pedófilo letrado [apesar de me interrogar se o primeiro é possuidor de tara especificamente virada para crianças ou para sexo num todo e achar que o segundo é predador geralmente com "poder aquisitivo" que escolhe a dedo as vítimas, crianças], o que pretendo é que as pessoas estejam atentas aos discursos destes últimos e que não se deixem enrolar palas suas palavras mansas, que não aceitem os seus pedidos de perdão [perdoar talvez só a um deus pertença] e que nem se comiserem com as lágrimas derramadas por eles ou seja lá por quem for, igual a si ou superior.
Esta questão das lágrimas trouxe-me à memória uma anedota ou piada que agora adaptada pode assim ser contada: quando Jesus andava pelo mundo encontrou sentado numa pedra um homem chorando. Homem porque choras? Senhor sou paralítico. Homem se tens fé levanta-te e segue-me. E o homem, caminhando, seguiu o Senhor. Mais à frente Jesus encontrou  sentado numa pedra um outro homem chorando. Homem porque choras? Senhor sou cego. Homem se tens fé abre os olhos e vê. E o homem começou a ver. Mais à frente Jesus encontrou sentado numa pedra ainda um outro homem chorando. Homem porque choras? Senhor sou pedófilo. Então Cristo sentou-se e chorou também.
Nos tempos tão conturbados que se atravessam, o mundo não quer este Cristo [ou seu representante] chorão, quer um Cristo enérgico, que, se for necessário, dispa a túnica do amor, da bondade e do perdão e que clame por justiça. Que entregue os criminosos à justiça dos homens sem meias palavras e libertas de brandura. Pecaste, violaste? Tens que pagar. Ainda que assuma com palavras claras para que todos percebam que a sua Casa está suja, podre de suja e que necessita de ser varrida, expurgada e que admita que talvez não seja capaz de a limpar apenas com discursos de circunstância e baldes de água-benta.
Irrita-me, meus caros amigos e amigas, irrita-me sobremaneira ter a sensação que todo este caso de pedofilia perpetrada por membros da Igreja Católica esteja a ser tratado com brandura a mais. Leio as notícias e fico sempre com a sensação de que tudo vai ficar em águas de bacalhau ou quetudo vai acabar em pizza, como por aqui se diz. É verdade que se fala sobre o caso, mas as palavras usadas pelos jornalistas são brandas, suaves, e nem ouço falar em formas de punição. Nunca ouvi falar, por exemplo, em castração química que foi tão badalada aqui há uns anos para tratamento de violadores sexuais... bom, mas como dizem que o melhor remédio é sempre a prevenção, meio a brincar meio a sério remato com um método eficaz, afinal aquela patranha que na infância os mais velhos nos metiam na cabeça: de que para ser padre um homem tinha que ser capado.

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